5G: uma revolução que se aproxima – devagar

Proximidade do leilão de radiofrequências e execução de testes pelas operadoras no Brasil aumentam expectativa pela nova geração de redes móveis, mas implementação é desafiadora
  As mudanças sociais e econômicas possíveis a partir da evolução das redes de dados móveis devem ser ainda maiores quando o 5G entrar em operação. A nova geração de internet móvel deve ser inaugurada apenas no fim de 2020, mas os debates sobre o leilão de radiofrequências e regulações pertinentes já começaram na Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, e algumas operadoras já conduzem testes pontuais.

Para se aprofundar no tema, acesse o report “Inovação na Era do 5G: onde estamos, para onde vamos”

É o que indicaram os participantes do painel “5G e os desafios de conectar o país com alta velocidade”, que ocorreu no dia 16 de outubro durante o IT Forum Expo 2019, em São Paulo. Os debatedores reconheceram o gigantesco avanço tecnológico que está por vir e a relevância do 5G no desenvolvimento da economia digital brasileira, embora a complexidade regulatória, tecnológica, financeira e até política imponha desafios.

Segundo Humberto Bruno, chefe da assessoria técnica da Anatel, o tema é importante para toda a sociedade, uma vez que a infraestrutura de telecomunicações dá suporte ao processo de transformação digital do país. Por isso, tanto governo como operadoras, sejam de grande ou pequeno porte, precisam se unir em torno do tema. “Diversos testes vêm sendo conduzidos pelas operadoras: a Oi no Rock in Rio, a Vivo, a Claro em Santa Rita do Sapucaí”, disse. “A Anatel está planejando um dos maiores leilões do mundo em termos de faixas.”

Além do leilão de espectros de frequência, o especialista chamou a atenção para a necessidade de “densificação”. O número de equipamentos instalados nas cidades brasileiras está estagnado há muitos anos, principalmente por leis municipais preocupadas com o impacto que as antenas causam – elas são grandes e ocupam muito espaço, geralmente em topo de prédios, e geram inconvenientes a moradores e negócios.

No 5G, no entanto, a chamada “eficiência espectral”, ou seja, o volume de dados que pode ser enviado por hertz de frequência, é maior. O que na prática significa estações rádio base menores e energeticamente mais eficientes, podendo ser instaladas em postes e telhados baixos, por exemplo.

“Seja pela baixa latência para missão crítica, como conseguir pilotar uma colheitadeira ou operar máquinas remotamente, a rede tem que ser mais flexível”, disse o servidor público. “Acreditamos que o 5G é um divisor de águas entre a economia digital antiga e a nova.”

A Anatel está preparando uma primeira versão do edital, que ainda deve passar por consultas públicas. Seu principal objetivo é trazer segurança jurídica para empresas que pretendam investir em 5G, além de definir frequências que serão vendidas, considerando características tanto de cobertura como de densidade. O leilão deve ocorrer no primeiro semestre de 2020, mas ainda não há uma data especificada.

Concorrência setorial

Enquanto isso, as empresas que pretendem operar redes 5G se movimentam. Atila Branco, diretor de planejamento de redes da Vivo, disse que os desafios não se resumem a pagar altas somas pelo uso dos espectros, mas também instalar suficiente número de antenas nas cidades – e em quais cidades. Obter mais densidade é fundamental pois o 5G não vai conectar apenas pessoas, mas também “coisas”.

“O volume de dados nas redes dobra a cada ano, e são necessárias mais antenas, mas esbarramos em legislações municipais e ambientais, algumas que não fazem sentido”, explicou Branco.

Para Eduardo Neger, presidente da Associação Brasileira de Internet (Abranet), que reúne provedores regionais e outras companhias, o 5G passa ainda por “iluminar” o Brasil com fibra óptica – tecnologia de transmissão de altíssima velocidade que conecta também as antenas de telefonia móvel aos chamados backbones, a infraestrutura central de transmissão de dados.

É importante, diz ele, que o 5G não fique limitado aos grandes centros, e que a rede óptica instalada por esses provedores no resto do Brasil sirva para democratizar a tecnologia. Neger defende que essas empresas – cerca de 12 mil operadoras regionais espalhadas pelo país – participem do leilão da Anatel.

Apesar do otimismo, os especialistas reconhecem que o 5G ainda deve levar algum tempo para se tornar realidade. Afinal, há uma exigência por investimentos de longo prazo e que não se resumem a trocar equipamentos em antenas. É preciso, disse Branco, “passar por uma extrema transformação digital de rede”, o que inclui tecnologias como virtualização da rede, capaz de dividir o tráfego por tipo de aplicação, entre outras.