‘Líderes que transformam’ | episódio 4: “É muito bom ser a TI em uma empresa em que as outras áreas entendem o que a TI faz”

Gestora de TI da Atech, Neiva Lacerda comenta os desafios de um trabalho que tem a inovação em sua essência e que impacta milhões de pessoas, direta ou indiretamente


A urgência da migração para o home office não assustou Neiva Lacerda assim que a pandemia começou. Isso porque o trabalho em sinergia com o time tornou o processo rápido e quase indolor. Tudo isso com muito trabalho e planejamento que já vinham antes mesmo da crise sanitária e econômica, respeitando uma máxima que costuma repetir a suas equipes: “se ninguém lembra da TI é porque está tudo indo muito bem”. 

Gestora de TI da Atech, empresa do grupo Embraer, Neiva é a quarta entrevistada da série de podcasts “Líderes que Transformam”. Ela traz reflexões práticas sobre o dia a dia na liderança em TI – que, segundo ela, é muito mais sobre pessoas do que sobre máquinas – e conta o que faz a inovação sair do papel.

Quer saber como foi o bate-papo? Abaixo, você pode ler parte dessa conversa. Mas o que a gente recomenda mesmo é que você coloque os fontes de ouvido e curta a entrevista na íntegra, lá no SoundCloud:

Você trabalha hoje na Atech, uma empresa que tem a inovação no seu DNA – e isso não é uma conversa institucional, até por ser uma empresa do grupo Embraer, ela tem uma atuação no desenvolvimento de soluções para o tráfego aéreo, defesa e segurança, gestão de ativos e outras frentes em que esse aspecto de inovação é muito presente. Ou seja, você é gestora de TI em uma empresa de inovação, não onde ela é um núcleo de trabalho ou atividade pontual. Para um líder de TI que trabalha nesse contexto, essa condição traz mais pressão ou senso de realização?

Neiva Lacerda: Costumo dizer que é muito gratificante para a Neiva estar na Atech. Nós atuamos direta ou indiretamente na vida das pessoas e a inovação está presente em toda a companhia, e isso facilita demais o trabalho da TI. Nosso time propõe projetos, novas práticas, qualidade de entrega dos projetos para os nossos clientes e equipes internas. Tudo o que colocamos é sempre muito bem recebido e caminha lado a lado com as necessidades que a gente tem de suportar o negócio e inovar, inovar de maneira constante.

Você também passou por outras empresas, algumas delas do setor de telecom. Mesmo na Atech você teve uma passagem, depois saiu e voltou como coordenadora de TI. Depois de todas essas experiências, como você definiria uma cultura de inovação?

Neiva Lacerda: Gosto de pensar que nós, profissionais de TI, precisamos constantemente nos reinventar. Nós buscamos a inovação em nós mesmos, afinal, a tecnologia está sempre presente e é de evolução muito constante – e a gente precisa acompanhar.  Eu mesma já passei por muita coisa: mainframe, bug do milênio, centrais telefônicas que ocupavam andares inteiros de prédios e, enfim, a tecnologia muda muito e acho que isso é muito bom. 

Para que uma cultura de inovação possa existir de fato é preciso que todos da empresa estejam engajados. Não existe um crachá com o cargo “inovador”, então eu posso afirmar que uma boa comunicação de toda a empresa é a chave para essa evolução constante. Ela nunca vai deixar de existir – pode até acontecer de forma mais lenta ou de forma mais acelerada em cada companhia, mas ela existe e está intrínseca na atividade de TI. Não tem como ser TI e não ser inovador. 

Você comentou que não existe um crachá com esse título de inovação, mas acho que o que existe muito é a cultura de inovação como uma ideia presente na empresa, mas não uma conduta. Em empresas grandes e tradicionais, vemos muito esse gargalo entre a ideia e a vivência, a execução de uma cultura de inovação.

Neiva Lacerda: Super concordo com você. E acho que se você fechar uma área e disser que aquela é a área de inovação, você acaba até impedindo que outras pessoas da companhia possam trazer ideias e práticas. Na verdade, a inovação é um conjunto de ideias quando todos estão ali caminhando na mesma direção e buscando algo que seja melhor para a companhia naquele momento. O que você falou é muito importante porque isso precisa estar intrínseco em cada um.  Todos temos que procurar uma forma diferente de fazer o mesmo trabalho e que ela seja eficaz, que sobre tempo para fazer outras atividades, estudos e inovar.

Você falou que a inovação é intrínseca à TI – não existe TI sem inovação. Eu não tinha esse ponto de vista. Ainda penso muito na TI do data center, dos bastidores, da infraestrutura. Você acha que isso mudou nessa última década?

Neiva Lacerda: Tenho certeza que sim. Quando eu entrei na TI, 25 anos atrás, para começar, a gente nem era TI, era departamento de informática. Poucos tinham o computador que a gente tem hoje, então cuidávamos de mainframe e de equipamentos mais robustos. 

A própria tecnologia evoluiu em várias fases. Os data centers do passado são totalmente diferentes do que temos hoje: 20 anos atrás, quem iria imaginar que teríamos a nuvem, por exemplo? A TI sempre vai estar um passo à frente no quesito inovação. Não há uma mágica, às vezes a própria forma de conduzir o trabalho buscando eficiência é inovadora. E é isso que diferencia os núcleos entre si.

Você está em um contexto de negócios voltado à inteligência com geração e análise de dados em tempo real. O que você tem visto de mais promissor em termos de tecnologias e soluções que são voltadas à tomada de decisão?

Neiva Lacerda: De alguns anos para cá, a gente passou a entender que olhar para os dados é muito importante. Podemos comparar com o passado, quando dado era algo que você guardava em um backup e só recuperava caso precisasse. 

Temos um volume de dados gigantesco à disposição para que através de mecanismos de inteligência artificial, de big data, possamos fazer análises mais assertivas. Assim, fazemos gestão com base científica de dados confiáveis. 

Um ponto importante de tudo isso é que a tecnologia da infraestrutura, que foi gargalo na área de TI por muito tempo, passou a acompanhar as novas tecnologias.

Por muito tempo, as bases de dados não eram olhadas como algo que é rico. Hoje, a gente entende claramente que fazer a análise e o cruzamento dessas informações possibilita a tomada de várias decisões – sejam elas de negócios, da área comercial, de vida pessoal. Tudo isso é dado e o grande segredo é tratá-lo de forma eficaz e extrair dele a melhor informação para o seu negócio. 

Neiva, o que você acha que pode dificultar ou atrapalhar a adoção de tecnologias como IoT ou big data dentro de uma empresa?

Neiva Lacerda: Acho que, em um primeiro momento, o entendimento de que ela é importante – e que, dada a devida importância, é possível extrair muitas informações a partir do uso de chatbots, por exemplo. Hoje, acabamos usando o recurso humano para avaliar os dados extraídos.

Neiva, você trabalha em uma empresa que nasceu inovadora e, até aqui, entendemos o que isso representa para você. Eu fico pensando também que essa é uma abordagem que pode impactar muito as equipes de TI. Você acha que esse contexto de inovação acaba criando nas equipes um maior senso de contribuição, envolvimento e responsabilidade?

Neiva Lacerda: Com certeza, Silvia. É uma motivação a mais que a gente tem no time. O nome Atech não é tão conhecido quanto a Embraer, mas quando as pessoas começam a entender o que a gente faz, elas percebem que é super impactante. Nosso senso de responsabilidade é muito grande, mas, por outro lado, isso é bom, é gratificante.

A gente tem papel relevante para todas as entregas que a empresa faz. A gente suporta o negócio. É muito bom ser a TI em uma empresa em que as outras áreas entendem o que a TI faz. Isso é muito bom quando a gente traz uma proposta de mudança, uma melhoria em algum sistema. Conseguimos conversar no mesmo nível com todo mundo. Você trabalha mais fácil dessa forma. 

A TI ganhou uma visibilidade, um poder, um impacto que realmente transformam a forma como um profissional de TI encara a profissão dele…

Neiva Lacerda: Sem dúvidas, a TI está na vida de todo mundo, direta ou indiretamente. No passado, a imagem era de um cara que ficava fechado em um ambiente gelado, o dia inteiro trabalhando. E de repente você está falando com a Neiva, uma mulher, mãe, que foge do estereótipo de TI, que trabalha em uma empresa que tem inovação no seu DNA. Durante muito tempo ficamos às escuras e agora estamos com grandes holofotes, principalmente no último ano, com tudo o que aconteceu, mas isso é muito gratificante.

Costumo dizer para o time que a TI boa é a TI que ninguém lembra, porque isso é sinal que tudo está funcionando normalmente. Se ninguém reclama, é porque tudo está indo muito bem, e esse é o nosso trabalho.

O que faz você se sentir satisfeita e reconhecida no seu trabalho?Neiva Lacerda: Primeiro, o local que eu trabalho. Estar ali no dia a dia das pessoas é muito importante. Mesmo lá atrás, quando entrei na faculdade, eu já sabia que, apesar das dificuldades até de ser mulher nesse meio, eu estaria fazendo o que eu amo. Além disso, o reconhecimento do trabalho bem feito é ver que está tudo bem.

Ouça a entrevista na íntegra aqui


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