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Na vida e na TI, a gente aprende mais do que vence

empreendedorismo, tecnologia, varejo, TI

Juventude não é antônimo de experiência e a trajetória de Carlos Leite atesta isso. Hoje, diretor de Tecnologia da Informação do grupo St Marche, Leite tem uma trajetória de empreendedorismo e pioneirismo cheia de lições — que servem para todos. Sabe por que?

Só conta histórias quem viveu, garante Carlos Leite. E, na Nigéria ou em San Diego, na medicina ou na educação, ele tem alguns causos para contar. Atualmente, diretor de tecnologia da Informação do grupo St Marche, rede de supermercados de bairro com 20 lojas na Grande São Paulo, Leite tem forte veia empreendedora. Desde 2004, quando completou o curso de Ciências da Computação da USP, ele participou da fundação de quatro startups. 
A primeira foi a Freeddom, uma fintech especializada em soluções tecnológicas para pagamento por celular. Depois, a Medicinia, uma healthtech. Os dois passos seguintes também foram em áreas diferentes: o Mercado Fresh, voltado para o varejo; e a Skore, uma edtech. “Não foram grandes unicórnios”, mas aprendi muito com todas elas, brinca Carlos Leite. Criado em 2013, o termo unicórnio descreve startups avaliadas em mais de um bilhão de dólares.

O começo na tecnologia

Apesar das evidências, Leite diz que tantas empresas de tecnologia no mesmo currículo não formam um nerd. Pelo menos não aquele nerd típico, que desde criança é apaixonado por videogames e desmonta computadores. “Sempre fui um cara da rua, de passar os dias com a galera jogando bola”, conta ele, que chegou a ser jogador de futebol de salão.

Bom aluno, em especial nas exatas, foi na faculdade que o mergulho em tecnologia começou. “Foi aí que entendi e me aprofundei no que era programação e outras técnicas de computação.” O novo aprendizado se somou às habilidades sociais, que sempre foram pontos fortes de sua personalidade, ajudando-o a colocar nos trilhos uma carreira pra lá de criativa.

Os primeiros passos com uma fintech começaram em 2005, com a Paggo que criou uma das maiores plataformas de pagamento mobile do mundo naquela época: a Oi Pago. A experiência, que mais tarde resultou na Freeddom, também o levou para a Nigéria, onde a empresa foi implementar soluções tecnológicas para um banco e seus executivos perceberam que há países cujos conflitos civis podem superar o do Brasil. “Ao chegarmos lá, a polícia do exército foi nos buscar no aeroporto. Viajamos num ônibus que estava cravejado de balas”, lembra, destacando que o banco fez questão de contratar a melhor segurança para proteger os estrangeiros que acabavam de desembarcar em seu país.

“Quando as empresas falham, na maioria das vezes o problema não é do produto, mas de falta de financiamento, de funding”

Outra história marcante vem de San Diego, nos Estados Unidos, onde ele foi participar de um evento de tecnologia. A Freeddom ocupava o estande 29. O vizinho? Uma tal de Waze Inc. “Os caras estavam buscando investimento. E eu conheci os fundadores da Waze”, diz ele. Em 2013, o Google adquiriu o aplicativo de direção e mapeamento de ruas e trânsito por 1,3 bilhão de dólares.

Quando o ciclo na fintech chegou ao fim, Carlos Leite resolveu mergulhar na saúde. Foi um dos fundadores da Medicinia, especializada em soluções de comunicação médico-paciente. Fez centenas de entrevistas com médicos, para entender o tamanho do desafio e saber quais dados o profissional pede aos pacientes. Assim como na experiência com pagamentos por celular, Leite e seus sócios enfrentaram um problema, o timeframe.

“Quando começamos a trabalhar com pagamento móvel, em 2007 e 2008, muitas vezes fomos acusados de crime fiscal. Lembro de ouvir, em reuniões, os advogados da empresa dizendo: ‘parem tudo, porque isso é crime, não tem o cupom fiscal e não pode ter pagamento por celular’”, recorda.

Essa situação, por mais que pareça inacreditável no 2022 do PIX, se repetiu em outros momentos da carreira de Carlos Leite. “O Cremesp [Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo] falava para não usar nossa plataforma, porque telemedicina era crime”, destaca.


Além da proposta que chega no momento certo, Leite diz outra coisa que faz a diferença na hora de transformar uma boa ideia em empresa. “Quando as empresas falham, na maioria das vezes o problema não é do produto, mas de falta de financiamento, de funding”, alerta. O depoimento dele encontra respaldo em dados: o Sebrae ouviu mais de mil sócios de startups brasileiras que fecharam. Segundo a pesquisa, a falta de financiamento foi responsável pela quebra de 40% das empresas.

“O problema da tecnologia não é da TI. É da empresa, é do negócio. Então, o papel do profissional de TI é trazer para a companhia uma essência que a torne mais eficiente e ainda mais competitiva, potencializando os talentos da equipe”

Carlos Leite tira lições mesmo das experiências que não acabaram bem. “Errei, quebrei financeiramente. Mas aprendi muito também. Você nunca quer ser citado como mau exemplo para alguém, mas não deixo de ter a sensação de que minhas experiências, boas e ruins, foram úteis. E que eu deixei um legado em cada uma dessas jornadas”, completa.

A chegada no varejo

A introdução no varejo também foi empreendendo, com o Mercado Fresh. Ao começar a trabalhar com uma plataforma para pedir produtos por delivery em diversos estabelecimentos, Leite percebeu que o trabalho de tecnologia no varejo não tem nada de trivial. “Você tem que dar a opção da pessoa pedir um cacho de bananas para consumo imediato ou para daqui cinco dias; uma fatia de queijo fina ou grossa; um tomate para molho ou para comer na salada”, explica, destacando a complexidade do desafio.

Do Mercado Fresh para o cargo de Diretor de Tecnologia da Informação do grupo St Marche foi um pulo. Leite, que assumiu a nova função dias antes da OMS declarar que o mundo enfrentava uma pandemia, recebeu o convite e encarou o desafio. “O varejo é tradicionalmente visto como um lugar onde se armazena bens, se compra bens e se vende bens, não como uma empresa de tecnologia”, diz ele. Por outro lado, Leite acha que o varejo é uma espécie de parque de diversões, não no sentido do divertimento, mas da variedade de oportunidades. “Todos os dias, são muitos clientes passando pela loja, pelo aplicativo, pelo site da empresa…”

Aos poucos e com um trabalho de formiguinha, ele vê a TI cumprindo o papel: ser uma habilitadora da transformação digital, mudando a forma como problemas são abordados. 

“O problema da tecnologia não é da TI. É da empresa, é do negócio. Então, o papel do profissional de TI é trazer para a companhia uma essência que a torne mais eficiente e ainda mais competitiva, potencializando os talentos da equipe”, completa.

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