O coronavírus fará a transformação digital chegar à Saúde de vez?

Recursos de telemedicina, teletrabalho, análise de dados e IoT aceleraram durante a pandemia, mas perenidade da adoção depende de cultura corporativa e da regulação estatal


Muito se discute sobre os ganhos que a transformação digital pode trazer para a saúde, seja em termos de gestão ou assistência. No entanto, efetivar essa transformação é difícil, tanto em relação à implementação – que pode contribuir com o bem-estar do paciente e o trabalho dos profissionais da área – quanto às leis que regulam o setor. Recursos de telemedicina, por exemplo, são gradualmente adotados – apenas para algumas especialidades. Ou ao menos eram: a pandemia da Covid-19 obrigou instituições, operadoras de planos e órgãos regulatórios a analisarem com mais pressa essa modalidade.

Para Tiago Damasceno, CIO da rede de hospitais Leforte, de São Paulo (SP), a crise de saúde impulsionou a tecnologia em toda a sociedade, fazendo com que a pressão para o uso de meios digitais seja ainda maior. E isso significa tanto manter a continuidade do cuidado usando telemedicina, como prestar suporte administrativo às instituições em trabalho remoto.

“A sobrecarga sofrida pelo setor com certeza impacta as iniciativas digitais”, diz o executivo. “No entanto, o maior problema para a adoção de tecnologia é que o sistema de saúde brasileiro ainda é um dos menos digitalizados, mais complexos, com forte regulação e, ainda, burocrático em suas estruturas e relações de mercado.”

O CIO acredita que o momento é de adaptação para as instituições, principalmente os prestadores de serviços médicos, como hospitais e clínicas. Primeiro “resistindo às intempéries impostas globalmente”, e depois identificando e investindo em tecnologias que realmente possam apoiar a sobrevivência de curto prazo e pós-pandemia.


Tecnologias potenciais

Mas quais são as tecnologias mais promissoras para o futuro da assistência hospitalar em um cenário pós-pandemia?

Depende, diz Damasceno – tanto da cultura, como da finalidade de cada instituição. Além disso, a relação entre profissionais de saúde e consumidores deve se tornar cada vez mais híbrida, ou seja, parte seguirá com a necessidade de atendimento presencial e outra parte totalmente digitalizada.

“Diante desse cenário, é inegável a necessidade de ampliação da telemedicina, do monitoramento à distância com Internet das Coisas (IoT Healthcare), da interoperabilidade de sistemas, do uso intensivo de análise de dados, da automação e da inteligência artificial”, diz.

Talvez o mais conhecido dos recursos tecnológicos para a saúde, a telemedicina ainda sofre de alguns empecilhos para se efetivar. O primeiro deles é a incerteza normativa e regulatória para a prestação do serviço, pois a permissão atual para a prática é temporária (Lei nº 13.989/2020), ou seja, dispõe sobre seu uso apenas durante a crise causada pelo coronavírus.

Damasceno cita outros desafios, como a capacitação e reorganização dos processos de trabalho dos profissionais de saúde, o fornecimento de estrutura tecnológica de comunicação, a integração de equipamentos médicos com prontuários eletrônicos e a adoção de ferramentas digitais em todo território nacional. Sem esquecer da segurança da informação e da privacidade dos dados do paciente.


Telemedicina, teletrabalho e dados

No caso do Grupo Leforte, em que Damasceno atua, o princípio de adoção tecnológica é o da contribuição que cada recurso pode dar no cuidado da saúde e nos ganhos de produtividade dos profissionais. “Parece óbvio, mas a adoção de uma tecnologia apenas por ser novidade ou tendência prejudica ótimas iniciativas e se mostra, muitas vezes, financeiramente inviável”, explica o CIO.

No caso do enfrentamento da Covid-19, os esforços do time de TI do Leforte foram direcionados principalmente no provimento de mais serviços de telemedicina, na ampliação do trabalho remoto e no uso de ferramentas de produtividade e segurança da informação. Isso além de “impulsionar a análise de dados para rápidas e constantes tomadas de decisão”, diz Damasceno.

Enquanto o setor ainda luta no combate à pandemia, a pergunta que fica é: passada a crise, toda a evolução tecnológica impulsionada por ela deverá permanecer?


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