Podcast ‘Líderes que transformam’| Episódio 1: “A gestão da infraestrutura de redes deve ser pensada proativamente”

Estreia da série de podcast traz Fernando Silva, coordenador de TI da Zilor, em um papo sobre a migração dos data centers para a nuvem, maturidade de negócio e evolução da carreira em TI


O “encontro” de Fernando Silva com a TI foi ao acaso, ainda aos 15 anos. Mas o estímulo para percorrer 25 anos de atuação na área não veio da casualidade, e sim da identificação com esse universo. Ele também soma mais de uma década de trabalho para a Zilor, hoje como coordenador de TI, bagagem que lhe proporciona uma visão integral e profunda tanto dos marcos do mercado de tecnologia, quanto da própria organização, em suas diferentes fases de maturidade de TI e negócios.

Fernando é personagem da série “Líderes que transformam”, já conhecida no blog da 2S Inovações Tecnológicas, mas agora em nova temporada – desta vez, em formato de podcast. Quer saber como foi esse bate-papo? Então, clique para ouvir. Ou, se preferir, veja abaixo a transcrição da entrevista na íntegra.

Fernando, a gente sabe que a tecnologia se transforma muito rapidamente, mais do que qualquer mudança que a gente já viu na história. Imagino que em 25 anos de carreira você já viu muita coisa acontecer nesse mercado. Queria que você contasse um pouco sobre a sua trajetória como profissional de TI e os marcos que você vivenciou nesses anos. 

Fernando Silva: Parando para pensar, é uma longa história, e eu nem sinto que foi tudo isso. Comecei em 1994, caí um pouco de paraquedas. Eu sou do interior, de Lençóis Paulista, bem próximo a Bauru, e lá existe um colégio técnico da Unesp. Decidi me inscrever porque todos falavam que era uma boa escola pública, e era preciso fazer uma prova para entrar. Entre os cursos disponíveis, havia o de Processamento de Dados, e foi esse que eu escolhi fazer. Mas eu era um menino de 15 anos sem nenhum embasamento para fazer essa escolha. Tive excelentes professores, uma experiência bem bacana e comecei minha vida ali. 

No ano seguinte, eu precisava fazer o estágio obrigatório e consegui uma vaga na Zilor. Depois de dois anos de estágio, entrei como técnico de suporte, depois analista de suporte, fui para infraestrutura, na parte de redes, até que, em 2010, entrei para a liderança da equipe de infraestrutura da Zilor. Foi um desafio grande, já são mais de 10 anos e vi muita coisa acontecendo dentro da própria empresa. A internet veio forte, houve mudanças de sistemas de gestão e, mais recentemente, estamos seguindo nessa onda de cloud. Tudo que estamos executando ultimamente não é mais dentro de casa, e sim com os sistemas rodando em nuvem. 

Eu caí de paraquedas, me apaixonei por esse mundo e estou aqui até hoje. E continuo apaixonado. Muitos classificam como loucura, mas eu gosto muito do que eu faço. 

Tem um ponto bacana porque muito gestor de TI não tem esse viés técnico. Hoje é comum que a pessoa venha de outras áreas porque a tecnologia está em todas as partes do negócio. Eu venho desse mundo técnico e é até uma armadilha, porque não posso pensar apenas no lado técnico e esquecer do negócio como um todo. Mas, com certeza, todo mundo que está na área gosta muito da profissão.

Talvez nada se compare, para a TI, com o ano que a gente tem vivido. Você concorda com isso? E o quão desafiador foi para você enquanto coordenador de TI lidar com os efeitos da pandemia do coronavírus para a TI e, claro, para os negócios. 

Fernando Silva: Com certeza, acredito que ninguém nunca viveu nada igual antes. Os desafios são inúmeros: pessoais, profissionais, de equipe, de saúde, econômicos. Do lado da TI, foi um desafio e tem sido um desafio diário.

Em março, quando foi decretada a pandemia, começamos as primeiras reuniões e logo surgiram as dúvidas: “nós conseguimos colocar toda a equipe em home office?”.  Começamos a analisar a infraestrutura que tínhamos, mas lembro que, nessa reunião, pensamos que seria por poucas semanas. Foi uma correria, mas conseguimos colocar 300 colaboradores para trabalhar em casa em cinco dias. Depois, o desafio foi sustentar isso com qualidade, para não prejudicar a performance da equipe.

Outro desafio é o de segurança da informação. Quando você tira o time do escritório e manda para casa, utilizando redes que você não conhece, a preocupação é grande. Há o desafio de manter as informações da empresa de forma segura. Uma lição aprendida é o quanto a infraestrutura de TI da empresa é importante, e que é preciso pensar nela não quando acontece o problema, mas muito antes disso. 

Estamos vendo a normalização progressiva das atividades, em alguns setores mais do que em outros, mas, ainda assim, vemos uma adoção mais massiva do trabalho remoto. Olhando para o mercado em geral, de que forma você acha que essa experiência passada reflete em ganho de maturidade para a gestão de TI, principalmente em infraestrutura de redes?

Fernando Silva: A gestão da infraestrutura de redes é muito importante, e você nunca deve pensar nela reativamente, você tem sempre que pensar proativamente. 

Teve também uma questão de maturidade, e não só para a TI, foi uma mudança completa de mindset. A Zilor é uma empresa tradicional, que não tinha como prática o modelo remoto, mas agora todo mundo já sabe que isso funciona e funciona bem. As equipes continuaram entregando resultados, o negócio não parou e conseguimos trabalhar dessa forma. 

E isso não é exclusividade da Zilor, tenho certeza que muitas empresas passaram por isso e agora percebem que conseguem trabalhar remotamente. É claro, há uma série de questões a serem trabalhadas – cuidados técnicos, de gestão e com pessoas – mas é possível. 

O Gartner prevê que, até 2025, mais de 80% das empresas vão desligar seus data centers e migrar totalmente para a nuvem. Como você enxerga essa tendência do crescimento do ambiente de cloud?

Fernando Silva: Eu acredito que esse dado seja factível. Por outro lado, esses 20% que não migrarão até 2025 representam bastante. Muita coisa ainda continuará dentro de casa. Na minha opinião, eles continuarão seja por algum tipo de restrição técnica de alguma aplicação que não pode rodar em nuvem, seja por alguma deficiência em infraestrutura. Operando aqui no interior de São Paulo, vejo ainda deficiência grande de infraestrutura.

É um caminho sem volta, o ambiente cloud traz diversas vantagens. Acredito também que o cenário híbrido, de manter alguma coisa ainda on premise, vai continuar por um bom tempo. Acho que a nuvem não vai atingir os 100% tão rapidamente. Mas, como tudo em tecnologia, não podemos escrever nada na pedra porque tudo muda muito rapidamente.

Voltando a falar da sua carreira, vemos que você tem uma trajetória bem interessante. Você tem experiência em várias outras empresas, mas há 25 anos você mantém atividades recorrentes na Zilor. Muitas dessas transformações você viu acontecer dentro de uma única empresa. Quais são as vantagens de conhecer tão bem uma organização, como é o seu caso, e passar por tantas fases sendo gestor de TI?

Fernando Silva: Não é muito comum, principalmente nessa área de tecnologia, ter carreira de 25 anos dentro de uma mesma empresa, às vezes é difícil achar, mas quando a gente olha para o interior até que fica fácil encontrar muitos profissionais com longo tempo de empresa. 

A principal vantagem é o conhecimento do negócio, a cultura da empresa, saber a história. Tudo o que a gente vive influencia nas decisões que tomamos no presente. O principal ponto é a visão holística do negócio, conhecer a operação como um todo – de fio a pavio, como costumo dizer. A empresa tem cinco unidades e eu já passei pelas cinco. Também passei por projetos nas duas unidades fora do Brasil. 

A empresa é totalmente diferente do que conheci  25 anos atrás, e tem que ser assim mesmo, o negócio tem que se transformar para continuar vivo. É bacana ter passado por essas fases – algumas delas boas, outras nem tanto, mas tudo contribui para me tornar um profissional melhor. 

O quanto a transformação digital passou a ocupar seus dias e consumir seus esforços? Em que estágio você acredita que as empresas brasileiras estão nessa jornada?

Fernando Silva: A transformação digital é um termo muito utilizado hoje em dia, há uma enxurrada de sistemas que prometem isso, mas, na verdade, a transformação digital já acontece há muito tempo.

Olhando para dentro da Zilor, vejo processos que acontecem de forma totalmente diferente e muito mais eficaz do que era feito há 10 anos. Isso porque muitos componentes de tecnologia e automação de dados melhoraram esse processo. 

O que vem acontecendo nos últimos anos é que, agora, essa transformação está muito mais acelerada e mais acessível para todo mundo. Se a gente pensar na maturidade dos bancos, por exemplo, você consegue fazer tudo pelo seu smartphone. O varejo também mudou bastante, compro pelo aplicativo e, às vezes, o produto chega no dia seguinte em casa. O nível de maturidade está super alto.

Quando falamos do mercado da Zilor, por exemplo, isso acontece um pouco mais devagar, de maneira mais cautelosa. Cada vez isso está mais acessível para as empresas, tanto para as grandes, mas também para as pequenas. E a pandemia acelerou ainda mais esse processo. 

Como você consegue balancear as demandas do hoje, as urgências, e as demandas de crescimento futuro? Como líder de TI, como equalizar essa balança, já que a TI é muito cobrada para apoiar o negócio no crescimento futuro? Como você lida com isso no dia a dia?

Fernando Silva: É um desafio muito grande, mas quem trabalha com TI sabe que isso faz parte do jogo. É preciso ter uma preocupação com o dia a dia, porque o negócio precisa funcionar. 

Outro ponto que vejo que é muito importante é seguir o compliance. Estamos vindo de uma onda que, cada vez mais, ele é muito valorizado, e deve ser. E isso demanda muito de TI.

Em relação a crescimento e futuro, precisamos ter atenção, e ter alinhamento com a estratégia do negócio e com as outras lideranças, principalmente aquelas áreas que trazem valor para o negócio. A TI é muito importante, mas acaba sendo uma área de apoio. 

Para você, o que é fazer sucesso como líder de TI?

Fernando Silva: O sucesso depende de vários fatores, e cada um tem uma expectativa. Para mim, fazer sucesso é conseguir entregar os resultados esperados para o negócio. Também acredito que sucesso é engajar sua equipe e conseguir influenciar as pessoas. Outro ponto é, pessoalmente, ser feliz. Conseguir lidar com os desafios do dia a dia e equilibrar a  vida pessoal e profissional. 


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