Por que projetos de IoT emperram?

Transformação digital é motor de aplicações que ‘conectam tudo’, mas falta de infraestrutura corporativa adequada e complexidade dos projetos são entraves

Entre as tecnologias que compõe a transformação digital, a Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês) é destaque tanto pelo potencial prático – controlar máquinas à distância, por exemplo, ou tornar a iluminação de uma cidade mais inteligente – como pela capacidade de gerar dados, depois transformados em insights de negócio. Mas então porque projetos de IoT emperram?

Segundo especialistas, projetos do tipo tem sofrido na prática com ciclos de implantação mais longos que o esperado – quando não travam, simplesmente. “Emperram pela novidade”, resume Gisele Braga, gerente de transformação digital da 2S. “Vemos alguns clientes no dia a dia que ainda estão criando modus operandi para tratar projetos de IoT. Falta uma visão mais realista, o que é necessário de infraestrutura, que nem sempre tem custo baixo.”

Para Rodrigo Linhares, especialista em IoT da Cisco, que abordou o assunto na palestra “IoT: das Provas de Conceito à Realidade”, durante o Cisco Connect Brazil, realizado em São Paulo no início de outubro, há ainda a questão do retorno sobre o investimento e a heterogeneidade da tecnologia, que gera grande complexidade.

Apesar dos desafios, o entusiasmo sobre a IoT é crescente nas empresas brasileiras. Um estudo recente encomendado pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) revelou que o ecossistema de IoT no país deve crescer 20% ao ano até 2022, alcançando R$ 36 bilhões já em 2019.

Há ainda o desafio do gerenciamento, ou seja, saber como e onde os dispositivos estão, se a conexão é estável, se os dados estão sendo coletados, se estão executando corretamente suas funções, e ainda dar inteligência a tudo isso de forma segura. Segurança, aliás, é a principal barreira de implementação de IoT para 68% dos profissionais ouvidos pela própria Cisco.

“Um projeto que traz retorno envolve, muitas vezes, milhares de dispositivos conectados. E se você tiver que fazer alguma alteração ou movimentação um a um, naturalmente não vai escalar”, explicou Linhares. “É preciso encontrar formas de fazer isso de maneira automatizada.”

Esse desafio natural aos projetos de IoT faz com que alguns CIOs “tremam na cadeira”, brincou o especialista. Isso porque a diversidade de dispositivos, protocolos e formatos de dados envolvidos em um projeto é enorme. Mesmo projetos básicos, que envolvem medição de temperatura em ambientes, por exemplo, podem ter sensores de fabricantes diferentes e padrões distintos alimentando uma aplicação que cresce em complexidade.

Virando a chave

Como, então, reduzir a complexidade dos projetos de Internet das Coisas, tornando-os mais escaláveis e replicáveis? Para Linhares, é preciso primeiro mudar a mentalidade de quem implementa os projetos, levando em conta que eles não serão feitos sobre as bases padronizadas de antigamente.

Para Gisele Braga, é determinante que a empresa tenha uma infraestrutura de conectividade consolidada. O que se observa nas companhias, no entanto, são redes “frankenstein”, montadas aos poucos sob demandas diversas. “No caso da indústria, em que as máquinas precisam estar conectadas em um anel lógico, não há infraestrutura para receber dispositivos de diferentes fornecedores. Sem isso leva muito tempo para fornecer a infraestrutura necessária para IoT”, explica a especialista.

O conceito de redes intuitivas, ou intent-based networking, também pode ajudar. Elas agem de acordo com a demanda e se adequam sozinhas às políticas de cada negócio, ou seja, são automatizadas com base em dados de uso e se valendo de tecnologias como machine learning. Essas redes seriam, em tese, capazes de aprender e se adequar às demandas de rede de cada solução específica.

O edge computing, ou computação de borda, também é um caminho. Com ele seria possível descentralizar a grande capacidade de processamento necessária para projetos do tipo, fazendo com que os dispositivos conectados também tratem as informações colhidas ou executem partes de aplicações. Com isso, cai tanto o tráfego de rede como a necessidade de armazenamento na nuvem.

“Quando tenho que implementar essa infraestrutura, não necessariamente é simples. Tenho que tomar várias decisões: que tipo de gateway, quais elementos vão coletar dados, que sistema operacional, qual a capacidade e forma de storage?”, questionou Linhares a plateia. “Muitas vezes preciso montar um lego com diferentes componentes de diferentes origens, e por isso os projetos não andam, pela dificuldade de tomar essas decisões”, resumiu o especialista da Cisco.

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