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Série “Líderes que transformam” | episódio 2: O grande mal da nossa sociedade é ansiedade, e muitas vezes cortamos etapas

No novo podcast da série, Alexandre Santos, CTIO da Light, fala sobre o desafio de unir tradição e inovação, colocando a TI a serviço de operações complexas.


Foi ainda na adolescência que Alexandre Santos descobriu seu encantamento pelas ciências exatas e pela tecnologia. E se os estudos o levaram pelo caminho técnico, a vocação em liderança o fez buscar a especialização em gestão. Como CTIO da Light, uma empresa com mais de 100 anos de história, ele vive a união entre tradição e inovação – isso em um setor essencial e sensível, de desafios bastante particulares.

Com todo esse pano de fundo, entrevistamos o executivo no segundo episódio da série “Líderes que transformam”, a primeira temporada em formato de podcast. Quer saber como foi essa conversa? Então, clique para ouvir. Abaixo, também transcrevemos partes do episódio.

Alexandre, para começar, queria ouvir um pouco sobre a sua trajetória. Você tem um histórico profissional bastante diversificado como líder de TI. Você tem repertório no setor de energia, mas também passou por outras empresas e consultorias. Transitar por diferentes universos te ajudou na carreira como CIO? Além da sua própria atuação, você acha que essa diversificação de setores pode ser uma vantagem para o CIO?

Alexandre Santos: Pela minha experiência e por tudo o que consegui carregar na minha mochila nessa jornada, passar por diferentes experiências agregou muito. Você vive realidades e contextos diferentes e é levado a uma adaptabilidade porque os processos de negócio são diferentes, as realidades, inclusive de tecnologia, são diferentes.

Agora, de uma forma mais ampla, se outros colegas têm experiências semelhantes, eles também podem carregar esse benefício, diferente de colegas que ficaram décadas na mesma indústria. Mas é difícil dar essa resposta porque a performance e o desempenho de cada pessoa é individual, está muito atrelado ao que você busca, ao foco, à visão, engajamento, conhecimento, ao posicionamento na carreira e à visão da tecnologia dentro da empresa.

Mas eu apostaria que ter essa experiência diversificada enriquece mais do que ter uma única experiência. Uma coisa é certa: quem passa por essa diversificação não tem a possibilidade de acomodação, de zona de conforto. Porque você já tem o domínio do que está ali, e a tendência de quem está há muito tempo no mesmo lugar é, de certa forma, entrar em uma zona de conforto em relação a isso. Há também um outro lado, porque quem está há muito tempo na mesma empresa acaba construindo um conhecimento muito profundo daquele negócio, e essa profundidade também é benéfica.

Hoje, muito se fala em transformação digital, mas a gente vive isso há no mínimo 20 anos. As coisas tiveram que mudar, no sentido que antes tínhamos ambientes mainframe centralizados, processamentos centralizados, redes proprietárias. Depois vivi o momento que a internet saiu do mundo acadêmico e chegou ao mundo corporativo. E isso trouxe um outro impacto significativo. Agora, estamos vivendo um pós-internet, ou uma nova palavra que uma hora vão criar para representar isso. A buzzword é “digital”.

Essa escolha entre diversificação e especialização é algo que podemos transpor para todos os profissionais de TI de forma geral, não é verdade, Alexandre? Com tudo o que o mercado demanda hoje, visão de negócios e profundidade técnica, esse é um dilema para todo o mundo na TI…

Alexandre Santos: Eu acho que sim. Por exemplo, hoje eu estou no setor de energia, e talvez ele seja um dos mais conservadores e, de certa forma, atrasado em termos tecnológicos. Teve um primeiro boom há alguns anos, com conceitos de smart grid, etc, mas nos últimos 10, 12 anos, esse avanço acabou não sendo tão significativo no Brasil. 

Em geral, o setor de energia é um setor pesado, de tecnologias pesadas, e ciclos de vida muito longos dessas tecnologias. Exemplo disso são as próprias hidrelétricas. Você leva 10 anos projetando uma hidrelétrica, outros 10 anos construindo para operar por 50, 60 anos.  Não só na Light, mas em outras empresas do setor elétrico, você encontra ativos que estão lá operando e que tem 40 anos de idade. Muitas vezes isso leva à cultura do setor de ser mais lento, mais conservador, mais burocrático e averso ao risco para poder avançar. 

Enquanto isso, se você vem de outros setores, como mídia e entretenimento, você é atacado ferozmente – como o ataque da própria internet à mídia impressa. Hoje, na mídia, isso é mais forte ainda porque estamos falando dos nativos digitais – como Facebook, Google e Netflix atacando de maneira muito frontal o setor de mídia. Esse é um setor extremamente empurrado a viver à frente do seu tempo.

Esse movimento que chegou há 15, 20 anos no setor de mídia e entretenimento também está chegando agora ao setor elétrico. Você começa a ter que se preocupar com a experiência do cliente que está consumindo energia. Você já começa a entrar em mudanças de regulamentação no mercado e, talvez em um futuro próximo, o que hoje é conhecido como um mercado cativo você passa a ter que competir porque o cliente pode escolher de quem ele vai comprar a energia que vai usar.

A mobilidade da minha carreira me dá a oportunidade de olhar a experiência que tive em outros setores e adaptar para aplicar dentro do mercado de energia. Posso agregar essa experiência porque já vivi isso e ter mais elementos para questionar o status quo. 

O setor de energia é muito sensível e muito pressionado, seja por marcos regulatórios, ou desafios mais recentes, como a busca por modelos mais sustentáveis, por exemplo. De uma perspectiva pessoal, a vida de CIO já é trabalhar sob pressão, como fazer isso em um setor tão pressionado? E qual é o papel da TI para endereçar os desafios tão complexos do setor?

Alexandre Santos: Há uma percepção de pressão maior pelo próprio senso de utilidade, tanto que o mercado está diretamente na sustentação da estabilidade da sociedade – sem energia não há ordem pública. Sem energia, nem água nem gás conseguem ser bombeados para a sua casa. A energia tem um fator primordial até pela visão de segurança nacional dos países. Quando você vê uma guerra, as estratégias de guerra destroem bases militares, vias de acesso e fornecimento de energia, porque assim você gera o caos do outro lado, no teu inimigo. Fornecer energia e garantir que ela esteja disponível, por si só, já é uma pressão enorme.

Com as modificações no mundo em relação à sustentabilidade e a diversificação na matriz energética e geração de energia limpa, você ganha mais um expoente nesse fator de pressão, além da pressão que ela seja mais flexível e econômica para o consumidor.

Isso se reverte para nós dentro da área de tecnologia: sofremos a mesma pressão que outros setores sofrem. Por exemplo, eu trabalhei em seguros e em health care. Se a tecnologia falhar em health care, a gente está falando de uma vida do outro lado. É alguém que não teve atendimento, procedimento, que não passou por uma cirurgia, que não foi encaminhado da forma adequada, não importa. Enfim, existe uma pressão porque você pode desestabilizar – vide o momento que estamos vivendo, a pandemia. Como você garante o acesso aos hospitais, remédios, laboratórios, procedimentos?

Então, a gente, na energia, vai ter uma pressão semelhante. Vivemos um momento que começou anos atrás e agora está mais intenso.  Em uma indústria como a nossa, ela agora tem uma relação íntima e sinérgica com o chão de fábrica. Tudo está sendo medido, controlado e integrado.

Outro ponto de pressão é a cybersecurity. Antes, tudo estava separado – até mesmo fisicamente. O escopo de preocupação de cybersecurity não é mais só o portal da sua empresa, os serviços que ela expõe. Não, a preocupação também está na automação, no chão de fábrica. Se uma vulnerabilidade se estender, pode representar um comando errado de desligamento, ou seja, a pressão ganha contornos cada vez maiores. 

A TI é ditada por tendências que recaem sobre as organizações de uma forma bastante agressiva – ou você inova, adotando as tecnologias disruptivas e digitais, ou fica para trás. Não que isso não seja verdadeiro, ou parcialmente verdadeiro, mas o quanto essa ditadura da transformação digital pode atrapalhar, ou mesmo comprometer um plano de TI pela pura pressão das lideranças da empresa em fazer essa transformação?

Alexandre Santos: As empresas fazem suas estratégias de médio e longo prazo, mas também têm que estar prontas para absorver outras estratégias emergentes. Você já tinha essa realidade no passado e, hoje, você tem essa realidade de forma mais intensa. Ninguém quer esperar o amanhã, todo mundo quer o amanhã hoje. O grande mal da nossa sociedade é a ansiedade, que está diretamente ligada ao nosso comportamento de que aquilo que é o futuro tem que ser o nosso presente. E a gente não quer esperar pelo futuro. E muitas vezes cortamos etapas e caminhamos por uma linha de consumismo para que isso aconteça agora.

Se, dentro das empresas, não tomarmos cuidado, isso pode gerar um impacto muito forte porque a tecnologia muda continuamente. Quando a gente olha pras corporações, e elas têm seus legados, suas estruturas e regulações de mercado, você tem que conseguir achar um ponto de equilíbrio entre o que é uma “buzzword”, um modismo e o que faz sentido para a sua indústria e para o seu mercado. No fundo, todas as empresas existem para dar lucro. Se não há estabilidade e retorno, por que estou fazendo determinada coisa e não aquilo que efetivamente vai contribuir com a sustentabilidade da empresa?

Essa é a hora que nós, que estamos na cadeira de tecnologia, precisamos saber viver essa ambiguidade: olhando para frente, para o que há de mais moderno, mas, também, com os pés no chão e entender os processos, a estrutura que precisa ser mantida e onde é possível correr riscos ou é preciso tomar cuidado. Algumas empresas podem sofrer um retrocesso nessa transição porque preferem dar um salto ao invés de passarem pela transição e acabam sofrendo dores muito maiores.

Vejo também muita gente que diz estar fazendo transformação digital, mas quando você olha profundamente não há nada disso, ela só está fazendo um discurso de marketing digital muito interessante. No fundo, ela não tem processos digitais, a agilidade que poderia ter, não tem processo criativo por trás para gerar mudança constante. Algumas empresas acreditam que porque colocaram um app no celular ou um chatbot elas são digitais. Às vezes, há um chatbot na ponta, mas toda a arquitetura não é digital. Vemos muito isso no mercado: quem realmente está trafegando por uma linha digital e quem está dizendo que está trafegando. Desses, quem está cuidando dessa transição, já que não são nativos digitais – como a Light, que é uma empresa centenária. Há um legado imenso para carregar nas costas. 

Alexandre, e uma hora a conta chega, né? Se falta esse planejamento, esse cuidado, uma hora a conta vai chegar…

Alexandre Santos: E eu vejo ela chegando de forma muito dolorida. Em relação à transformação digital, temos a questão da cultura. É o modus operandi diferente, a governança diferente e o modo de pensar diferente dentro das empresas. E não necessariamente as empresas e as pessoas que fazem parte delas estão preparadas para isso. É como colocar remendo novo em uma calça velha: vai rasgar porque o tecido da calça é velho.

É preciso cuidar de uma série de aspectos. Vemos empresas querendo mudar para o digital sem ter cuidado dessa parte. Elas preferem colocar uma ponta digital, como o caso dos chatbots, mas essa ponta digital não consegue falar com o outro mundo que não está preparado para isso. E é aí que você vê situações de aplicações que não vão performar, problemas de atendimento com o cliente. No fundo, você colocou no ar algo que todo mundo acreditou que seria um sucesso, mas não cuidou de aspectos de arquitetura e infraestrutura. Agora, não é possível voltar atrás e o custo vai ser alto, porque você vai ter que consertar isso em voo.

Essa preparação envolve uma questão cultural forte que precisa ser assimilada. A Light é uma empresa centenária. Como você lida com o desafio de quebrar paradigmas em organizações tradicionais? Quais são os ganhos e os desafios de ser CIO nesse contexto?

Alexandre Santos: Eu já vivi uma situação no setor elétrico que nós resolvemos, como tecnologia, ser um pouco disruptivos, um pouco ousados e irmos para uma solução que não era a que se vivia dentro de uma empresa de energia. A primeira resposta que recebi da área de engenharia foi: “enquanto eu sentar nessa cadeira, nunca será feito desse jeito que vocês estão propondo”. 

Mas eu tenho um perfil um pouco insurgente, então, eu não me detive nesse bloqueio. E aloquei pessoas do meu time para pesquiarem, investigarem e trabalharem aquele tipo de solução. Trabalhamos quase um ano assim e vimos que conseguimos viabilizar o que queríamos. Em determinado momento, passamos por uma situação que o Brasil corria o risco de falta de energia pela falta de chuvas e existia um risco de apagão. A empresa pediu que respondêssemos em até três meses, e eu respondi: “nós temos uma solução”.

Aquele que disse que jamais faria aquilo tomou um susto, mas ele buscou compreender, nós avançamos e em um mês nós conseguimos processar, operar e responder que não haveria apagão no país.

Estou contando tudo isso porque quando você está dentro de um ambiente extremamente conservador, avesso a riscos, você chega com uma proposta que fere totalmente essa perspectiva. Na verdade, essa proposta pode ser a grande salvação para a empresa naquele contexto, e esse foi o nosso caso. Essa é uma realidade que eu vivo, não só lidar com conservadorismo ou modelo mental mais austero, mas também com o outro lado – com aqueles que acham que já são digitais, por exemplo. É preciso trabalhar com esse diálogo.

É legal ouvir você falar, Alexandre, porque dá para perceber a intensidade e o envolvimento sincero do CIO com os seus desafios. Sinto isso em você e em outros CIOs que já passaram aqui pela série. O CIO gosta de ser CIO. 

Alexandre Santos: É verdade. Eu já me fiz essa pergunta e pensei que é a única coisa que eu sei fazer é isso mesmo. Uma vez me ofereceram uma outra posição no mercado e eu fiquei pensando: “tudo bem, eu tenho dois MBAs, uma especialização, um mestrado. Eu tenho condições de assumir esse desafio diferenciado. Mas então você fica pensando: é isso mesmo que é o meu papel? É aí que vou gerar mais valor?”. Eu sou um apaixonado pela minha profissão, faço isso desde os meus 15 anos de idade.


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